Roberto Carlos - Jesus Christ
Antes de se tornar um dos maiores intérpretes da música romântica brasileira, Roberto Carlos passou por uma transformação artística que marcou o início dos anos 1970.
Jesus Cristo está no centro dessa mudança.
Composta por Roberto Carlos e Erasmo Carlos, a canção foi gravada em 1970 e incluída no álbum Roberto Carlos, lançado em dezembro daquele ano. O sucesso foi imediato: a faixa tornou-se uma das músicas mais executadas no Brasil em 1970 e posteriormente ganhou versões destinadas ao mercado internacional.
O single “Jesus Christ”, lançado em 1971 pela CBS, representa justamente uma dessas iniciativas de internacionalização. Em algumas edições estrangeiras, a faixa apareceu em inglês, enquanto outros mercados receberam versões em espanhol e italiano. A edição alemã, por exemplo, trazia “Jesus Christ” no lado A e “Anna” no lado B.
UMA MUDANÇA DE DIREÇÃO
A gravação é importante também pelo momento em que surgiu.
Roberto Carlos havia encerrado sua fase mais identificada com a Jovem Guarda e começava a consolidar uma nova persona artística. O rock e o soul que haviam influenciado sua produção anterior ainda estavam presentes, mas passaram a conviver com baladas românticas, arranjos orquestrais e temas religiosos.
Jesus Cristo é talvez o exemplo mais evidente dessa transformação.
Musicalmente, a canção combina gospel, soul e música pop, utilizando uma estrutura simples e repetitiva, construída para ser imediatamente assimilada pelo público.
A repetição do refrão não é um detalhe secundário. Ela aproxima a composição da tradição do gospel e transforma a canção em uma espécie de canto coletivo.
O próprio Roberto Carlos já declarou que buscava uma sonoridade soul para a música, influenciado por nomes como James Brown, enquanto a composição também dialogava com o ambiente dos musicais Hair e Jesus Christ Superstar.
A LETRA E A CONTROVÉRSIA
A simplicidade da composição escondia uma novidade dentro da música popular brasileira.
Até então, o nome de Jesus não havia sido colocado dessa maneira, de forma tão direta, em um refrão de uma canção pop de grande alcance.
A música apresenta imagens de multidão, esperança, fé e busca por um caminho, construindo uma narrativa religiosa sem abandonar a estrutura de uma canção popular.
O sucesso, porém, também provocou controvérsia.
Setores conservadores chegaram a questionar a música e houve acusações de que ela poderia conter mensagens subliminares. Um deputado chegou a pedir providências contra Roberto Carlos com base na legislação de segurança nacional. O cantor negou qualquer mensagem oculta e afirmou que a intenção da composição era explicitamente religiosa.
O episódio demonstra a dimensão que Roberto Carlos já havia alcançado naquele momento: uma nova música sua não era apenas um lançamento fonográfico, mas um acontecimento cultural capaz de provocar debates fora do ambiente musical.
O SINGLE INTERNACIONAL
A expansão de Jesus Cristo para outros países acompanha uma estratégia mais ampla da CBS.
A canção foi lançada internacionalmente a partir de 1971, com adaptações linguísticas para diferentes mercados. Portugal e França receberam a versão em português; Itália e Países Baixos tiveram versões em italiano; Alemanha e diversos países latino-americanos receberam a versão em espanhol.
A versão em espanhol, “Jesucristo”, também ajudaria a ampliar a presença de Roberto Carlos no mercado latino-americano, território que se tornaria fundamental para sua carreira internacional.
O curioso é que a canção atravessou ainda mais fronteiras: recebeu versões em francês, inglês e finlandês, entre outras.
UM DOCUMENTO DE TRANSIÇÃO
O Jesus Christ de 1971 pode ser visto, portanto, como mais do que uma versão estrangeira de um sucesso brasileiro.
É um documento de um momento decisivo na carreira de Roberto Carlos.
O antigo ídolo da Jovem Guarda estava desaparecendo para dar lugar ao intérprete romântico, sofisticado e cada vez mais associado à religiosidade.
E há uma ironia histórica interessante: enquanto Roberto Carlos se afastava do rock que havia marcado sua juventude, a linguagem do soul e do gospel continuava presente na sua música, agora reorganizada dentro de uma produção mais popular e acessível.
A partir dali, a dimensão religiosa se tornaria uma característica recorrente de sua obra.
Jesus Christ foi, portanto, uma canção de enorme alcance popular, mas também um marco de transformação estética.
Um single que registra o momento em que Roberto Carlos deixou definitivamente de ser apenas o Rei da Jovem Guarda para começar a construir o personagem que dominaria a música romântica brasileira nas décadas seguintes.
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