
Luiz Loy e Seu Conjunto — Balanço Pra Frente: quando a música brasileira aprendeu a olhar para o futuro
Há discos brasileiros dos anos 1960 que parecem ter sido feitos para sobreviver ao tempo.
Não necessariamente porque tenham se transformado em grandes sucessos, mas porque registram um momento em que a música brasileira estava mudando de pele.
Balanço Pra Frente, de Luiz Loy e Seu Conjunto, é um desses discos.
Lançado pela London/Odeon em 1968, com catálogo LLB 1042, o álbum coloca lado a lado Caetano Veloso, Jorge Ben Jor, Marcos Valle, Tom Jobim, Erasmo Carlos, Beatles, Miriam Makeba e até o pop psicodélico de “Judy in Disguise”.
Só essa combinação já seria suficiente para despertar a curiosidade de qualquer garimpeiro de vinil.
Mas há algo mais.
O disco revela como a música instrumental brasileira daquele período estava absorvendo praticamente tudo o que acontecia ao seu redor.
E transformando tudo em balanço.
Luiz Loy: um músico entre mundos
Antes de chegar a Balanço Pra Frente, Luiz Machado Pereira, o Luiz Loy, já tinha uma trajetória considerável.
Pianista, organista, acordeonista, arranjador, regente e maestro, Loy começou profissionalmente ainda jovem e passou por importantes ambientes da música brasileira.
Em 1965, formou o Luiz Loy Quinteto, com Papudinho no pistom, Mazzola no saxofone, Bandeira no contrabaixo e Zinho na bateria. O grupo passou pelo programa O Fino da Bossa, da TV Record, inicialmente como trio e depois como quinteto.
Em 1966, Luiz Loy também participou, ao lado de seu conjunto, das gravações de Elis Regina e Jair Rodrigues em Dois na Bossa nº 2.
Ou seja, quando Balanço Pra Frente apareceu, Loy não era um músico chegando à cena.
Era alguém que já conhecia os bastidores da música brasileira e transitava entre televisão, shows, música instrumental e arranjos.
E o título não poderia ser mais apropriado
Balanço Pra Frente é um título que parece resumir a própria atmosfera musical de 1968.
O Brasil vivia uma época de profundas transformações culturais.
A Jovem Guarda já havia alterado o comportamento da música popular.
A Bossa Nova havia levado a música brasileira para o mundo.
A Tropicália começava a romper fronteiras entre tradição e cultura pop.
O soul e o funk norte-americanos ganhavam espaço.
E os músicos brasileiros estavam ouvindo tudo isso.
O disco de Luiz Loy é praticamente um retrato sonoro dessa abertura.
Não há preocupação em escolher entre “brasileiro” e “estrangeiro”.
A proposta parece ser outra:
o que acontece quando tudo isso passa pelo filtro de uma banda brasileira?
“Superbacana” abre a porta
A primeira faixa é “Superbacana”, de Caetano Veloso.
E começar o disco justamente com essa composição não é pouca coisa.
“Superbacana” pertence àquele universo tropicalista que misturava referências brasileiras, cultura pop, publicidade, ficção científica, psicodelia e ironia.
Na interpretação de Luiz Loy, a música ganha outro corpo.
Sem a presença vocal de Caetano, sobra espaço para o arranjo.
A melodia passa a ser protagonista.
E aquilo que no original carrega uma forte dimensão de linguagem e comportamento transforma-se em matéria-prima instrumental.
É uma mudança de perspectiva.
Depois vem Jorge Ben Jor
A segunda faixa é “Chove Chuva”, de Jorge Ben Jor.
E aqui o título do álbum começa a fazer ainda mais sentido.
Jorge Ben já havia desenvolvido uma maneira muito particular de misturar samba, rock, soul e uma batida que não cabia facilmente nas classificações tradicionais.
Levar “Chove Chuva” para dentro de um conjunto instrumental significa trabalhar justamente com essa célula rítmica.
É onde o sambalanço encontra o universo do soul-jazz.
E talvez esteja aí uma das grandes qualidades do disco.
Luiz Loy não tenta transformar essas músicas em outra coisa completamente diferente.
Ele procura descobrir onde está o balanço escondido dentro delas.
Beatles, Tom Jobim e Marcos Valle na mesma vitrola
A terceira faixa é “Viola Enluarada”, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle.
Depois aparece “With a Little Help From My Friends”, de Lennon e McCartney.
Em seguida, “L'amour Est Bleu”, “Wave”, de Tom Jobim, e a faixa-título, “Balanço Pra Frente”, creditada a Meirelles.
É um repertório que, visto hoje, parece quase uma playlist de um DJ antes da existência dos DJs.
E talvez essa seja uma das melhores maneiras de entender o disco.
Não como um álbum que tenta definir uma identidade única.
Mas como um álbum que documenta uma época em que as fronteiras estavam ficando cada vez mais porosas.
O Brasil estava ouvindo o mundo
Há um detalhe particularmente interessante.
O álbum não se limita ao repertório brasileiro.
“L'amour Est Bleu”, conhecida internacionalmente como “Love Is Blue”, havia se tornado um sucesso pop internacional.
“Judy in Disguise” vinha do universo do rock psicodélico.
“Israel” também aparece no repertório.
E “Malayisha”, associada a Miriam Makeba, acrescenta outra dimensão à seleção.
Isso revela algo importante sobre os músicos brasileiros dos anos 1960.
A influência estrangeira não significava necessariamente abandono da identidade brasileira.
Muitas vezes acontecia exatamente o contrário.
O músico absorvia a referência externa, desmontava seus elementos e reconstruía tudo dentro de uma linguagem local.
É assim que nascem muitos dos grandes híbridos da música popular.
O som do órgão merece atenção
Uma das características que ajudam a definir Balanço Pra Frente é o uso do órgão, ao lado de instrumentos de sopro, percussão e base rítmica.
Uma descrição de colecionadores do LP destaca justamente o encontro entre órgão, flauta e saxofone, além do caráter dançante de faixas como “Superbacana”, “Chove Chuva”, “Judy in Disguise” e “Israel”.
É um som muito característico de uma determinada época.
O órgão elétrico havia deixado de ser apenas um instrumento associado à música religiosa ou ao jazz tradicional.
Agora estava nas boates, nos bailes, nos conjuntos instrumentais e nos discos de música popular.
O instrumento ajudava a criar aquela textura que hoje reconhecemos imediatamente como groove sessentista.
E Luiz Loy sabia trabalhar com ela.
Um disco que parece feito para o baile
Existe uma diferença interessante entre ouvir Balanço Pra Frente como um documento histórico e ouvi-lo como música.
Como documento, ele mostra a circulação de referências musicais no Brasil de 1968.
Como música, ele simplesmente funciona.
Tem melodia.
Tem ritmo.
Tem arranjos acessíveis.
Tem repertório conhecido.
E, principalmente, tem movimento.
Não por acaso, uma fonte especializada em discos brasileiros descreve o álbum como um conjunto de interpretações instrumentais de forte apelo dançante.
Isso também ajuda a explicar por que discos desse tipo continuam despertando interesse entre colecionadores.
Eles podem ser históricos sem perder a função original:
fazer o corpo acompanhar a música.
E existe uma curiosidade internacional
Balanço Pra Frente não ficou restrito ao mercado brasileiro.
O álbum teve edição internacional, aparecendo posteriormente nos Estados Unidos, em 1970. Há também registros de edições com outros títulos e mercados, como Bailando de Frente, na Argentina, e uma edição britânica pela Decca/Eclipse.
Isso é revelador.
Naquele momento, havia interesse internacional por música brasileira instrumental, e discos como o de Luiz Loy faziam parte dessa circulação.
Não era apenas a Bossa Nova chegando ao exterior.
Havia também uma música brasileira de baile, instrumental, sofisticada e profundamente conectada ao jazz e ao pop.
O verdadeiro significado de “balanço pra frente”
Talvez o título seja mais importante do que parece.
“Balanço” olha para a tradição.
“Pra frente” olha para a mudança.
E Luiz Loy está justamente no meio dessas duas forças.
De um lado, a música brasileira construída sobre samba, bossa nova, choro e jazz.
Do outro, Beatles, rock, soul, psicodelia, música africana e novas sonoridades.
O disco não escolhe um lado.
Ele mistura.
E é justamente essa mistura que interessa ao ouvinte de hoje.
Porque, olhando para trás, podemos perceber que a música brasileira dos anos 1960 não era uma ilha.
Ela estava conectada ao mundo.
Os músicos ouviam discos estrangeiros, absorviam tendências, frequentavam programas de televisão, tocavam em boates e bailes e transformavam essas referências em uma linguagem própria.
Um daqueles discos que pedem uma segunda audição
Balanço Pra Frente talvez não seja o nome mais lembrado quando se fala da música brasileira dos anos 1960.
E isso torna sua descoberta ainda mais interessante.
Porque existem discos que entram para a história pelos grandes prêmios, pelas capas famosas ou pelas listas de clássicos.
E existem aqueles que sobrevivem nas mãos dos colecionadores, nos sebos, nas caixas de vinil e na memória de quem sabe procurar.
Luiz Loy pertence a essa segunda categoria.
Seu disco é uma pequena cápsula de um Brasil que estava ouvindo Caetano, Jorge Ben, Tom Jobim, Beatles, Miriam Makeba e o pop internacional — e tentando descobrir o que fazer com tudo isso.
A resposta foi simples:
colocar tudo para balançar.
E talvez seja exatamente por isso que, mais de cinco décadas depois, Balanço Pra Frente ainda faça sentido.
Porque algumas músicas envelhecem.
Outras apenas esperam que alguém volte a colocar a agulha no sulco.
Repertório
Superbacana — Caetano Veloso
Chove Chuva — Jorge Ben Jor
Viola Enluarada — Marcos Valle / Paulo Sérgio Valle
With a Little Help From My Friends — John Lennon / Paul McCartney
L'amour Est Bleu (Love Is Blue) — André Popp / Pierre Cour
Wave — Tom Jobim
Balanço Pra Frente — Meirelles
Quando Me Enamoro (Quando M'Innamoro) — Daniele Pace / Mario Panzeri / Roberto Livraghi — versão brasileira: Nazareno de Brito
Ave Maria dos Olhos Dela — Erasmo Carlos
Malayisha — Miriam Makeba / Jerry Ragovoy
Judy in Disguise — J. Fred / A. Bernard / J. Wessler
Israel — B. Zambrini / R. Cini / F. Migliacci