Abílio Manoel - Compacto
ENTRE A MPB, O SAMBA-ROCK E A CANÇÃO LATINO-AMERICANA
Há artistas que permanecem associados a uma única música. Abílio Manoel é um desses casos mas sua trajetória revela um compositor muito mais amplo do que o sucesso que o tornou conhecido.
Nascido em Lisboa, em 1947, Abílio Manuel Robalo Pedro chegou ainda criança ao Brasil. Na década de 1960, enquanto estudava Física na USP, começou a participar do circuito de festivais universitários. Em 1967, representou a universidade em um festival de música latino-americana em Santiago, no Chile, onde recebeu o prêmio de melhor compositor com “Minha Rua”.
A passagem pelos festivais seria decisiva.
Em 1969, venceu o II Festival Universitário da TV Tupi com “Pena Verde”. O compacto transformou a canção em um grande sucesso e, no ano seguinte, ela batizaria seu segundo LP pela Odeon.
PENA VERDE E O SOM DOS BAILES
É justamente aqui que começa uma das associações mais interessantes de sua obra.
“Pena Verde” passou a circular fortemente no universo dos bailes e posteriormente seria relacionada ao samba-rock. O mesmo aconteceria com outras gravações de Abílio, como “Tudo Azul na América do Sul” e “Luiza Manequim”.
Musicalmente, entretanto, sua produção não cabe com facilidade em uma única classificação.
Há samba, elementos de rock, arranjos orquestrais, canção popular, influências latino-americanas e uma aproximação com a estética tropicalista. Por isso, reduzi-lo simplesmente ao samba-rock significa deixar de lado boa parte da riqueza de sua obra.
O álbum Pena Verde, lançado em 1970 pela Odeon, é um bom exemplo. Com arranjos de José Briamonte e Luiz Arruda Pais, o disco apresenta Abílio como compositor e intérprete dentro de uma produção bastante elaborada para o período. Das 12 faixas, dez são de sua autoria.
ALGUMAS DAS CANÇÕES QUE MARCARAM SUA TRAJETÓRIA
O repertório mostra justamente a amplitude de sua produção.
“Andréa”, por exemplo, pertence a uma vertente mais romântica de sua obra. Já “Tudo Azul na América do Sul” aproxima-se de uma sonoridade mais rítmica e latino-americana, enquanto “Pena Verde” ganhou vida própria nas pistas de dança.
Essa diversidade acompanharia sua carreira.
AMÉRICA MORENA
Na segunda metade dos anos 1970, Abílio Manoel ampliaria ainda mais sua relação com a música latino-americana.
Em 1975, formou o grupo Terra Livre, e o trabalho resultou no álbum América Morena, lançado pela Som Livre em 1976. O projeto incorporava instrumentos andinos como zampoña, quena e charango, combinados aos timbres e estruturas da música popular brasileira.
A pesquisa acadêmica sobre sua trajetória destaca justamente esse momento como uma mudança importante: o artista que havia começado como cantor e compositor romântico passa a incorporar uma dimensão mais engajada e latino-americana em sua produção.
Posteriormente, entre 1978 e 1982, Abílio também produziu e apresentou o programa América do Sol, na Rádio Bandeirantes, dedicado à música latino-americana.
UMA OBRA MAIOR QUE UM HIT
A discografia de Abílio Manoel atravessa diferentes momentos da música brasileira.
Entre seus principais álbuns estão:
Foram trabalhos que acompanharam as transformações da música brasileira entre o final dos anos 1960 e os anos 1980.
Abílio Manoel morreu em 2010, aos 63 anos, em Itacaré, na Bahia.
Sua obra, porém, continuou encontrando novos caminhos. Em 2023, “Luiza Manequim” voltou ao circuito contemporâneo ao ser utilizada como base para “Luísa Manequim”, de Luísa Sonza.
O percurso de Abílio Manoel revela um artista difícil de enquadrar.
MPB, samba, rock, música latino-americana, canção romântica e samba-rock aparecem em diferentes momentos de uma obra que atravessou décadas e estilos.
Talvez por isso sua discografia mereça ser revisitada não apenas pela memória de “Pena Verde”, mas pelo conjunto.
Porque, por trás do sucesso que ficou na lembrança dos bailes, existe um compositor que ajudou a construir uma das fases mais diversas e inquietas da música brasileira.
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