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Al Hirt - Soul In The Horn

 

Al Hirt Soul in the Horn: quando o trompete entrou no território do Soul

Existe uma certa ironia no título Soul in the Horn.

Al Hirt já tinha uma carreira consolidada quando gravou esse disco em 1967. Trompetista de enorme projeção, associado à tradição de New Orleans e conhecido por seu virtuosismo, ele estava longe de ser um desconhecido tentando encontrar espaço.

Mas o que Hirt fez aqui foi diferente.

Em vez de simplesmente colocar seu trompete sobre mais uma coleção de standards, ele entrou em território dominado pelo soul, pelo R&B e pelo nascente soul-jazz.

E o resultado é um daqueles discos que parecem ter sido descobertos muitos anos depois de seu lançamento.

1967: o Soul estava mudando de direção

Para entender Soul in the Horn, é preciso voltar a 1967.

O jazz já havia atravessado diversas transformações. O soul estava consolidado. O R&B começava a incorporar cada vez mais elementos do funk. E artistas como James Brown estavam mostrando que o groove podia deixar de ser apenas acompanhamento para se transformar no centro da música.

Nesse cenário, até músicos vindos de tradições anteriores começaram a experimentar.

Al Hirt fez isso à sua maneira.

O álbum foi lançado pela RCA Victor, catálogo LSP-3878, em 1967, com produção de Paul Robinson e arranjos e regência de Teacho Wiltshire.

São onze faixas e pouco mais de 28 minutos.

Curto, direto e sem muita gordura.

O nome já entrega a proposta

A abertura é “Honey Pot”, composição associada a Steve Cropper, Donald “Duck” Dunn, Al Jackson Jr., Wayne Jackson, Isaac Hayes, Andrew Love e Floyd Newman — nomes que remetem diretamente à tradição do soul de Memphis e ao universo da Stax.

É uma escolha reveladora.

Hirt não está simplesmente tentando tocar “jazz com uma batida soul”.

Ele está buscando repertório que já carrega dentro dele uma história de groove.

Depois vem “Mess Around”, de Benny Gordon, seguida por “Calypsoul”, “Long Gone” e “Sweetlips”.

A receita começa a ficar clara: metais, balanço, R&B, blues e uma tentativa deliberada de aproximar o trompete de uma linguagem mais popular e dançante.

E o trompete?

É justamente aí que o disco fica interessante.

Al Hirt tinha técnica de sobra.

A questão era outra: o que fazer com essa técnica quando o objetivo não é demonstrar virtuosismo, mas encontrar o groove?

Em alguns momentos, o resultado é surpreendentemente eficiente.

“Love Ya' Baby”, “Sweetlips” e principalmente “Harlem Hendoo” mostram um Hirt menos preocupado em provar que consegue tocar qualquer coisa e mais interessado em deixar o instrumento respirar dentro do arranjo.

A crítica da época foi mais dividida.

Uma resenha publicada pela Down Beat em dezembro de 1967 reconheceu momentos em que o trompete de Hirt realmente encontrava uma sonoridade soul, mas criticou os arranjos de Wiltshire nas faixas mais aceleradas, considerando que alguns elementos de rock deixavam os arranjos excessivamente carregados.

É uma crítica interessante porque revela justamente a tensão do álbum.

Hirt encontra o soul com mais naturalidade quando deixa de tentar parecer moderno.

“Harlem Hendoo”: o segredo escondido no disco

Se existe uma faixa que transformou Soul in the Horn em objeto de desejo entre DJs, colecionadores e pesquisadores de samples, é “Harlem Hendoo”.

Na época, provavelmente poucos imaginariam que aquela gravação instrumental de 1967 seria redescoberta décadas depois pelo hip-hop.

O grupo De La Soul utilizou um sample de “Harlem Hendoo” em “Ego Trippin' (Part Two)”, do álbum Buhloone Mindstate, lançado em 1993.

E aqui a história fica particularmente interessante.

Um trompetista de New Orleans gravando um álbum de soul-jazz para a RCA nos anos 1960.

Vinte e seis anos depois, um grupo fundamental do hip-hop alternativo nova-iorquino encontra naquele disco uma textura que serve à sua própria linguagem.

É exatamente esse tipo de conexão que faz a história dos discos ser tão fascinante.

O vinil não envelhece necessariamente.

Às vezes, ele apenas espera que alguém descubra para que aquela gravação ainda pode servir.

O curioso caso de um disco “fora do lugar”

Hoje, Soul in the Horn costuma aparecer associado ao universo do soul-jazz, e é justamente essa classificação que ajuda a explicar seu interesse para colecionadores.

Mas o disco também parece estar um pouco deslocado dentro da própria carreira de Al Hirt.

Ele não se tornou a nova direção definitiva do trompetista.

Depois dele, Hirt continuaria gravando diferentes repertórios e transitando por jazz, pop instrumental e música popular. Soul in the Horn permanece como uma espécie de fotografia de um momento específico.

E talvez isso seja parte de seu charme.

Não é um manifesto.

É uma experiência.

O lado B guarda algumas surpresas

O segundo lado começa com “Love Ya' Baby”, passa por “Sunday-Goin' to Meetin' Time” e chega a “Snap Back”.

“Snap Back” merece atenção especial pelo arranjo e pela combinação entre piano, baixo e metais.

Depois vem “Harlem Hendoo”.

E o disco termina com “Ludwig”, composição de Kenneth E. Kerr.

É uma sequência que parece cada vez mais distante da imagem tradicional que muitos ouvintes têm de Al Hirt.

O trompete continua sendo o protagonista.

Mas agora ele está cercado por uma linguagem que aponta para o funk, para o R&B e para aquilo que os DJs e produtores de hip-hop encontrariam anos depois nas prateleiras das lojas de discos.

O disco que os colecionadores encontraram

Existe uma história recorrente no universo do vinil: determinados discos não eram necessariamente importantes quando foram lançados, mas se tornaram importantes quando outra geração descobriu seus sons.

Soul in the Horn é um desses casos.

O álbum passou longe de se tornar um dos grandes clássicos populares de sua época. Mas a combinação de soul, jazz, funk, metais e grooves curtos acabou transformando o LP em uma fonte interessante para DJs, beatmakers e colecionadores.

A própria existência de reedições modernas mostra como essa redescoberta aconteceu.

A Be With Records, por exemplo, lançou uma reedição em vinil em 2024, remasterizada por Simon Francis e com restauração da capa original.

É o velho fenômeno do garimpo musical:

um disco que parecia adormecido volta a circular porque alguém percebe que aquelas gravações ainda têm alguma coisa a dizer.

Mas é realmente um disco de Soul?

Aqui está uma pergunta interessante.

O título promete Soul in the Horn.

E há soul, sem dúvida.

Mas o álbum também é jazz, R&B, blues, música instrumental e, em determinados momentos, uma tentativa de acompanhar a transformação do mercado musical de 1967.

Talvez seja justamente essa mistura que o torna interessante.

Não precisamos colocar o disco dentro de uma única gaveta.

A música negra daquele período também estava em movimento.

Soul alimentava o jazz.

O jazz dialogava com o R&B.

O R&B caminhava em direção ao funk.

E, anos depois, o hip-hop voltaria para buscar fragmentos de tudo isso.

O que fica depois da última faixa?

Talvez Soul in the Horn seja menos importante pelo que representa na carreira de Al Hirt e mais pelo que revela sobre a própria circulação da música.

Um músico de uma geração anterior tentando conversar com uma nova sonoridade.

Uma gravadora buscando acompanhar a mudança do mercado.

Um arranjador construindo pontes entre jazz, soul e música popular.

E, décadas depois, DJs e produtores encontrando nessas mesmas gravações matéria-prima para criar outra coisa.

É assim que a música sobrevive.

Não necessariamente porque permanece intacta, mas porque continua sendo reutilizada, reinterpretada e descoberta.

Al Hirt provavelmente não imaginava, em 1967, que “Harlem Hendoo” encontraria uma segunda vida no hip-hop.

Mas encontrou.

E talvez essa seja a melhor definição para Soul in the Horn:

um disco que nasceu olhando para o presente e acabou encontrando seu verdadeiro público no futuro.

Repertório

  1. Honey Pot — Steve Cropper / Donald Dunn / Al Jackson Jr. / Wayne Jackson / Isaac Hayes / Andrew Love / Floyd Newman

  2. Mess Around — Benny Gordon

  3. Calypsoul — Paul Griffin / Yolanda Paterno

  4. Long Gone — Paul Griffin / Yolanda Paterno

  5. Sweetlips — Paul Griffin / Yolanda Paterno

  6. Girl — Paul Griffin / Yolanda Paterno

  7. Love Ya' Baby — Paul Griffin / Yolanda Paterno

  8. Sunday-Goin' to Meetin' Time — Paul Griffin / Yolanda Paterno

  9. Snap Back — Paul Griffin / Yolanda Paterno

  10. Harlem Hendoo — Paul Griffin / Yolanda Paterno

  11. Ludwig — Kenneth E. Kerr

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Alberto Roberto - Uma Voz ao Pé do Ouvido

 

A genialidade de Chico Anysio sempre esteve em sua capacidade cirúrgica de traduzir tipos humanos universais e o inesquecível Alberto Roberto é uma de suas criações mais inspiradas. Galã canastrão, afetado e dono de um ego inversamente proporcional ao seu talento, o personagem era uma sátira provocativa aos astros da atuação que se levavam a sério demais.


A figura de Alberto Roberto envelheceu como um espelho da sociedade. Hoje, ele encontra paralelo perfeito em certas figuras do cenário político: o indivíduo arrogante, desconectado da realidade, orgulhoso da própria ignorância e incapaz de perceber o quão ridículo parece para quem assiste. É o triunfo da pretensão sobre o conteúdo.
Neste registro histórico da era dos discos compactos, acompanhamos o próprio "Albertinho" distribuindo lições de romantismo e impostação de voz. Uma performance impagável que coloca no chinelo mestres da dramaturgia como Francisco Cuoco e o eterno parceiro de cena Lúcio Mauro, celebrando o melhor do humor e da memória fonográfica brasileira.






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Claudia Telles - Canta En Español

 

Cláudia Telles foi uma das vozes mais doces e marcantes da música romântica brasileira. Nascida no Rio de Janeiro, em 26 de agosto de 1957, ela trazia a música no sangue: era filha de Sylvia Telles uma das maiores musas e precursoras da Bossa Nova — e do violonista e compositor Candinho. A cantora nos deixou em 21 de fevereiro de 2020, aos 62 anos, marcando a história da MPB com seu talento inesquecível.

Criada na Zona Sul carioca, Cláudia cresceu no meio dos ensaios dos grandes nomes da nossa música. Ainda pequena, subiu ao palco do Teatro Santa Rosa a convite da mãe para cantar "Arrastão". No entanto, enfrentou uma perda precoce aos nove anos, quando Sylvia faleceu em um trágico acidente de carro em 1966. Após a perda, foi criada pelos avós maternos e, aos 16 anos, assumiu a independência ao ir morar sozinha no antigo apartamento da mãe, em Copacabana.

Sua trajetória profissional começou nos estúdios em 1972, fazendo vocal de apoio para ícones como Roberto Carlos, Gilberto Gil, Jorge Ben e Rita Lee. A bagagem de palco veio no Grupo de Chiquinho do Acordeon, onde assumiu os vocais principais por um ano para substituir a cantora Regina durante a gravidez.

O grande divisor de águas veio em 1976, quando assinou com a gravadora CBS e lançou o compacto simples "Fim de Tarde", assinado por Robson Jorge e Mauro Motta. A música virou um fenômeno nas rádios, ultrapassou 500 mil cópias vendidas e a projetou para todo o país.

Consolidando o sucesso, lançou em 1977 seu primeiro álbum completo, embalado pelo clássico "Eu Preciso Te Esquecer". No mesmo disco, fez uma homenagem emocionante à mãe ao regravar a imortal "Dindi", de Tom Jobim.

Claudia Telles – Canta En Español

Selo: CBS – CBS 5197

Formato: Vinil, 7", 45 RPM, Single

País: Spain

Lançado: 1977




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