Bate-Papo Com Marco Mattoli - Parte 2

Na segunda parte desse bate-papo, Mattoli fala sobre o início do Clube do Balanço e também sobre a gravação do 1º cd, Swing & Samba Rock.



Mattoli - ...O "Balanço Bom É Coisa Rara" é uma coisa engraçada, todo mundo gostava mas ninguém queria fazer.
Ficava naquele negócio: “Só vira essa p.... de pagode..."

E quando decidimos fazer, nós pensamos:
“Vamos pegar um repertório de clássicos do samba rock e vamos fazer um baile tocado.”

Só que o Edu é megalomaníaco e veio com aquele papo que não poderia ter só cinco caras. Tinha que ter teclado, percussão, metaleira.
Como eu tinha a experiência do Guanabaras, achava que não daria certo...

Mas ele insistiu, e me apresentou o Reginaldo e o Bocão.
Eu conheci a Tereza e disse à eles:
“Já que é assim vamos por uma cantora também, já que eu não sou exatamente um cantor...”

Então nos juntamos, chamamos o Dj Claudio Costa e fizemos o primeiro show com a formação do Clube. Isso foi em 2000, lá na Cohab Artur Alvim, no prédio do Renato Bergamo que é um dos idealizadores do Clube.

Fizemos esse primeiro show, um baile ultra familiar, mais de curtição.
E nesse dia me deu uma intuição.
Naquela época eu tinha desencanado de música, mas esse show me deu uma intuição que daria certo. Era uma turma de amigos tocando por lazer.
Parece que quando a gente coloca essa energia as coisas fluem melhor.


Nesse tempo eu já freqüentava algumas festas e notava que estava rolando muito Bebeto, Luiz Vagner, Marku, Pau Brasil, além de Jorge Ben e Tim Maia é claro.

E nos finais de semana rolavam umas "Jam Sessions" divertidas no Grazie a Dio.

Então eu fui falar com o dono de lá:
“Que tal rolar samba rock aqui de domingo ?”

Ele nem sabia o que era samba rock, mas a assessora de imprensa disse:
“Samba rock é legal. É um movimento que rola na periferia de São Paulo... Vamos fazer ?”

Ele topou e nós começamos a tocar nos domingos pra 30, 40 pessoas. Eu montava o som da casa.

A imprensa comprou a idéia, a garotada começou a freqüentar porque tinha uma discotecagem diferente e virou uma febre. Em um ano não cabia mais gente.

Quando começamos a tocar, eu chamei o Luiz Vagner e disse que ele iria pirar com o que estava acontecendo. E quando ele veio pirou mesmo:
"Opa, tô na moda !"


Daí começamos a convidar o pessoal.
O Bebeto apareceu, o Marku estava em São Paulo e foi também. E veio Abílio Manoel, Elizabeth Viana, várias pessoas interessantes desse meio. E o Grazie a Dio virou uma referência.


Nisso pintou o interesse de uma gravadora que tava lançando a Banda Black Rio, Paula Lima, Seu Jorge.
E nós achamos óbvio fazer, no primeiro disco do Clube, uma grande homenagem a toda essa história que estava meio parada.
E nós chamamos todo mundo novamente.

O Bebeto, nessa época tava voltando a fazer show em São Paulo, mas não queria trazer banda do Rio porque ficava muito caro e a gente acabou fazendo turnê com ele e na seqüência ele deu uma música inédita pra gente.

Chamamos o Luis Vagner, o Marku, o Erasmo Carlos, que curtiu tanto o nosso som que hoje ele diz que é integrante do Clube !
Foi muito especial.
Um reencontro que catalisou o pessoal da antiga com o pessoal novo e assim começou o Clube Do Balanço.


Arquivo - Nessa época o Dj Tony Hits, tocou bastante o as músicas do Clube no extinto programa Clássicos Da Nostalgia, na rádio Imprensa Fm.
Isso ajudou, não ?

Mattoli - O Clássicos Da Nostalgia e o Green Express (casa noturna especializada em samba rock, da capital de São Paulo).

Quando a gente tocava no Grazie a dio eu achava um absurdo o Clube não tocar nesses bailes.
Até que um dia eu fui lá no Green Express e disse que a gente tinha uma banda que bombava na Vila Madalena.


E o Marcão, com toda sua delicadeza:
“Isso não interessa não, toda vez que eu coloquei banda aqui saiu merda. Não tem nada há ver com o baile.”

E eu:
”Mas nossa banda não é de pagode, você nem vai perceber se é banda ou discotecagem...”


Como o Tony já conhecia a gente, falou com o Marcão e o convenceu. Nós "pagamos" pra tocar no Green Express.

Quando fomos fazer o show, deu um puta buchicho e tal... e nós super animados.
Quando entramos no palco, tinha uns 6 caras das equipes de baile olhando pra gente. Me senti numa banca examinadora, num controle de qualidade !

Nós arrastamos ou outro cara da periferia pro Grazie a Dio, mas a maioria não conhecia a gente.

E quando acabou, os caras gostaram muito e ganhamos o respeito das equipes.
Depois disso as equipes começaram a nos chamar pra tocar.

A primeira que a gente fez, se não me engano, foi o Mistura Fina na Casa de Portugal.
Apanhamos de 10 a 0 no baile, pois não tinha um som adequado. Fizemos o show no grito, e não nos agradou.

O seguinte foi com o Clássicos da Nostalgia, e eu disse que dessa vez iriamos fazer direito.
Nós alugamos um P.A. e aí virou, foi legal pra car...
Nós fizemos com várias equipes. Eu acho que hoje em dia o Clube é um artigo de luxo para as equipes de baile.

Isso pra mim é um ponto de orgulho, um orgulho cultural, assim como tenho do Guanabaras ter saído num disco de black.


Arquivo - O interessante é que ao invés do Clube aparecer na periferia e "invadir o centro", aconteceu o contrário.
O Clube saiu do centro e "invadiu a periferia".

Mattoli - Mas de certa forma a essência do Clube é de lá.
Eu não, mas o pessoal é todo de lá.

A Tereza é da Zona Leste, o Renato Bergamo que é fundamental na nossa história, também, o Fred Prince é da Zona Norte...
A idéia veio de lá, e isso é interessante no Clube. Não adianta uma música de qualidade ficar presa no topo do morro, se ela não tem esse potencial de dialogar com outras partes desse país.

Isso é uma coisa que eu sempre critiquei do baile, pois muitos baileiros criticam o Clube dizendo que o baile vai estragar, perder a essência e eu acho o contrário.
O baile vai mostrar a força dele, à partir do instante que ele for reconhecido como tal...
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