Bate-Papo com Marco Mattoli - Parte 1

Nessa 1ª parte, Mattoli conta como foi seu início na música, e fala sobre os Guanabaras e Balanço Bom É Coisa Rara:



Arquivo - Mattoli, Quando você começou a se envolver com música ?

Mattoli - Comecei com 14, 15 anos, com minha primeira banda de rock, chamada Basculantes, e nossa influência era The Clash, Sex Pistols e The Specials, que eu curto muito até hoje.

Eu acho muito legal essa fase do rock n’ roll. O punk rock voltou naquela coisa simples que é fazer rock n`roll.
O rock n’ roll veio com uma história de ter os instrumentos baratos.
Guitarra, baixo e bateria na época eram baratos.

O
s caras se juntavam numa garagem, faziam 3 acordes e tiravam um puta som, e isso é o barato do rock n`roll.
É uma música juvenil, simples e de fácil expressão, você pode se expressar com poucos recursos.
I
sso se perdeu durante os anos 60, com o rock ficando quase sinfônico.
Até que no final dos anos 70 nasceu o punk rock. E
eu, como a maioria da molecada na época, curtia pra caramba e fizemos essa banda.


M
as já nessa época eu já ouvia muita música brasileira, gostava de jazz, mpb.
E
u nunca tive cabeça fechada pra música, sempre gostei de vários estilos, e já tirava muita coisa brasileira, já tirava Jorge Ben, Tim Maia.
M
as só com a minha próxima banda eu pude mostrar um trabalho mais influenciado por balanço, samba, apesar de ser um projeto super imaturo.

A
banda, na verdade era uma dupla, pois a gente não conhecia músicos suficientes pra montar uma banda e então arranjamos uma bateria eletrônica, se chamava Mattoli e Ivanovic e a gente já levava Paz E Arroz.



Arquivo - E O Guanabaras... Como Pintou A Idéia?

M
attoli - O Guanabaras veio na seqüência, foi meu primeiro trabalho profissional.
Isso era mais ou menos 1988, 1989 e nós nascemos como uma banda pop, assim como todas as bandas da época.

J
untei-me com alguns amigos, chamamos dois percussionistas de escola de samba e resolvemos que queríamos fazer um negócio meio bossa nova, balanço, Jorge Ben, misturando tudo.


N
aquela época era quase uma vergonha dizer que você gostava de samba, que era considerado um estilo relegado à comunidade, à periferia.
M
inha turma amava música brasileira, gostava de samba e achava um absurdo não existir um grupo de jovens querendo fazer música brasileira.

F
izemos uma coisa hiper idealista e eu lembro que o Wagner, diretor da gravadora Eldorado na época que nos contratou disse:
"Eu gosto muito do trabalho de vocês, mas acho ele fora do tempo."
E hoje em dia, ele fala:
"Hoje o Guanabaras seria bom pra se lançar."

O
disco é muito bom por isso, apesar dos limites técnicos, é um disco quente, interessante.


E
u lembro que o primeiro cara do pop rock, que começou a falar de misturar, de chamar a brasilidade de volta foi o Chico Science.
I
sso foi em 94, 95 e a gente com o Guanabaras já fazia isso à 6 anos.
O
Guanabaras era um negócio absurdo pra época. Não se encaixava no movimento de rock, nem no do pagode que começava a aparecer na época.


A
rquivo - O Maior destaque dos Guanabaras foi "Correndo Ao Encontro Dela"...

Mattoli –
Sim, e tem uma história interessante.
A
gente tinha uma fita demo dessa música gravada e um dia eu conheci o Marquinhos Silveira, que apresentava o programa Band Brasil, que tinha também o Benê Alves e a Gleydes Xavier.

E
eu disse pro Marquinhos que tinha um grupo que não era de samba, mas que tinha muito de Jorge Ben e coloquei pra ele ouvir. Na metade da música ele ligou pro Benê Alves.

L
embro da cena direitinha, ele falando:
"
Benê, Benê, eu tô com um branquinho aqui, mas o cara parece o Branca Di Neve.
Ouve isso aqui, ouve isso aqui
..."
E
colocou um pedaço da música pro Benê escutar.
"Is
so tem que entrar no disco, vamos colocar no disco.”, que era um dos volumes do Band Brasil.

E
ssa foi a minha primeira participação fonográfica.
P
ra mim é uma honra, entrar pro mercado fonográfico através de uma coletânea de balanço, de música negra e foi surpreendente pra mim, porque eu não conhecia esse universo.


U
m pouco antes disso, o Carlinhos da gravadora Kaskatas tentou contratar o Guanabaras.
E
quando saiu a música "Correndo ao encontro dela" na coletânea, ele veio falar comigo querendo lançar.
M
as a Eldorado estava querendo também e na época eu achei melhor ficar na Eldorado.
H
oje eu me pergunto como seria se o Guanabaras tivesse saído pela Kaskatas, por ser mais periferia e tal...


P
orque eu sempre digo, entrei nesse universo pela porta dos fundos. Não tinha aquela história da minha família curtir.
Eu nunca freqüentei bailes, e
u curtia os discos.
Me juntei com uma turma que gostava das mesmas músicas e de alguma maneira a gente agradou.


A
cabamos caindo nos bailes com a turma da Band e ficávamos embasbacados:
"Car....., olha isso aqui! Olha esse universo !"
D
e repente a gente se via, por exemplo, no Choppapo em Santo André e aquilo parecendo bacia de jabuticaba !
E
u pirei, bateu na veia, e falei: "É aqui que eu vou ficar."


O Guanabaras tem toda essa história, de ser fora do tempo.
L
embro que levamos o disco pro Jorge Ben, ele ouviu e depois deu uma entrevista dizendo que gostou pra caramba dos Guanabaras.
M
uito legal...

N
esse tempo também conheci o Luiz Vagner, um pouquinho antes de gravar o disco, e nós ficamos muito amigos.


Arquivo - E porque Guanabaras Acabou ?

M
attoli – Com o passar do tempo eu tava querendo fazer um trabalho mais voltado pro samba, mas o pessoal dos Guanabaras não estava "tão brasileiro" como eu.
E
ntão achei melhor procurar outra turma, um pessoal mais voltado pro samba.


Arquivo - E você acabou lançando o seu album solo "Balanço Bom É Coisa Rara"...

Mattoli –
Isso ! Nessa época eu conheci o Edu Peixe, o Chulapa, o Tiquinho, o Fred Prince e o Gringo.
Foram os caras que eu chamei pra gravar meu disco solo e nós ficamos muito amigos.
E
ssa foi a semente do Clube.
F
azíamos os shows do "Balanço Bom" com um quinteto e tocamos até em Portugal.
M
as, fizemos poucos shows, pois o disco não virou.


O
"Balanço Bom" é uma coisa engraçada, todo mundo gostava mas ninguém queria fazer.
Ficava naquele negócio: "Só vira essa p.... de pagode..."

Q
uando decidi fazer, nós pensamos:
"Vamos pegar um repertório de clássicos do samba rock e vamos fazer um baile tocado."


Só que o Edu é megalomaníaco e veio com aquele papo que não poderia ser só 5. Tinha que ter teclado, percussão, metaleira.
C
omo eu tinha a experiência do Guanabaras, achava que não daria certo...


(Continua)
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